A Apple cobra R$ 3.599 pelo cérebro da casa e a Siri nova não fala português: as 3 automações de 30 minutos que você liga hoje de graça

Sala de estar à noite iluminada por uma única luminária, com sofá e quadros na parede

Dê um Upgrade na sua vida.

Ontem, 13 de outubro, a Apple subiu no palco e não falou de iPhone. Falou da sua sala.

Saiu uma Apple TV 4K nova e um HomePod mini novo. E saiu também uma conta que quase ninguém fez em voz alta.

Você vai pagar caro por um aparelho cuja principal novidade não funciona no seu idioma. Vale a pena entender isso antes de clicar em comprar.

O que foi anunciado de fato

A Apple TV 4K nova vem com o chip A19. A empresa promete CPU até 50% mais rápida que a da geração anterior e o dobro de desempenho gráfico, além de decodificador AV1 dedicado para streaming.

A mudança de uso é outra: ela ganhou três microfones de longo alcance com cancelamento de eco. Na prática, você fala com a TV sem pegar o controle, mesmo com o som tocando.

Custa US$ 299 nos Estados Unidos. No Brasil, o site oficial da Apple já lista por R$ 3.599. As lojas começam a vender em 13 de novembro.

O HomePod mini 2 traz o chip S10, cinco cores e um recurso de luz no topo que pulsa com a música. Sai por US$ 149, com chegada às lojas em 30 de outubro. O preço brasileiro ainda não foi divulgado.

A letra miúda: a Siri nova não fala português

O que justifica os dois lançamentos é a Siri conversacional, construída sobre a geração nova dos modelos da Apple. Ela entende contexto, puxa dados dos seus apps e, no caso do HomePod, reconhece até seis pessoas da mesma casa pela voz.

Agora o detalhe que muda tudo. Essa Siri sai em versão beta, só em inglês, em oito países: Estados Unidos, Austrália, Canadá, Índia, Nova Zelândia, Singapura, África do Sul e Reino Unido.

O Brasil não está na lista. Nem no anúncio da Apple TV, nem no do HomePod mini.

Ou seja: você paga R$ 3.599 em um aparelho vendido pela voz, e a voz não responde no seu idioma. Sobra o streaming, que o seu televisor já faz, e os três microfones esperando uma atualização sem data.

Não estou dizendo que o produto é ruim. Estou dizendo que ele foi anunciado para um mercado que não é o seu, e que a data em que isso muda aqui ninguém informou.

Eu caí nessa e perdi R$ 1.200

Em 2023 eu comprei um hub de automação e três lâmpadas inteligentes. Gastei pouco mais de mil reais achando que o problema da minha casa era falta de tecnologia.

Durou duas semanas. Depois eu voltei a apertar o interruptor, porque é mais rápido que pegar o celular, abrir o app, esperar carregar e tocar no botão.

O erro não foi o aparelho. Foi eu ter comprado automação sem ter rotina nenhuma para automatizar. Hardware não cria hábito. Ele só acelera o hábito que já existe.

Se você não tem hora fixa para dormir, uma lâmpada que apaga sozinha às 23h não vai te colocar na cama. Vai te deixar no escuro mexendo no celular.

Homem cortando legumes na bancada de uma cozinha clara durante a rotina da noite
Foto: Jason Briscoe / Unsplash

A regra que separa gadget de infraestrutura

Automação boa resolve atrito, não preguiça. Atrito é o passo chato que te faz desistir de algo que você já decidiu fazer.

Teste cada automação com três perguntas.

Primeira: esse comando eu repito pelo menos cinco vezes por semana? Se não repito, não é rotina, é brinquedo.

Segunda: ele acontece sozinho ou eu preciso lembrar? Automação que depende de você lembrar não é automação, é mais uma tarefa.

Terceira: se o aparelho quebrar hoje, eu perco a rotina junto? Se a resposta for sim, você terceirizou disciplina para um equipamento, e isso sempre cobra a conta depois.

O que passa nas três merece dinheiro. O resto é vitrine.

As três automações que você liga hoje sem gastar nada

Você já tem um celular. Ele faz quase tudo que um hub de R$ 3.599 promete fazer, só que sem a parte bonita.

Automação 1, o desligamento. No Android, use as Rotinas do assistente ou os Atalhos no iPhone para colocar o celular em modo de dormir num horário fixo, com a tela em cinza e as notificações bloqueadas. Tempo de configuração: 8 minutos.

Automação 2, a chegada em casa. Crie um atalho disparado por localização que silencia o telefone e abre a sua lista de tarefas do dia seguinte. É o único momento em que você está disposto a planejar e não está com pressa. Tempo: 10 minutos.

Automação 3, o despertar sem celular. Tire o telefone do quarto e coloque um despertador separado. Custa entre R$ 40 e R$ 80 e resolve o problema que nenhum assistente de voz resolve: você rolando o feed deitado antes de levantar. Tempo: 5 minutos, mais o pedido.

Trinta minutos no total. Nenhum deles exige comprar nada caro, e os três atacam o mesmo atrito que a Apple está cobrando em dólar para atacar.

Quando comprar faz sentido

Não é nunca. Casa conectada vira infraestrutura de verdade quando você já tem a rotina rodando e quer tirar os passos manuais dela.

O momento certo de gastar é quando você consegue dizer, em voz alta, qual sequência exata quer automatizar e com que frequência ela acontece. “Quero que às 22h30 a luz da sala caia pela metade e a TV desligue” é um projeto. “Quero deixar minha casa inteligente” é um impulso.

E se a sua intenção de compra é a Siri nova, espere o anúncio do suporte ao português. Comprar agora é pagar hoje por um recurso com data indefinida.

A sua ação de hoje

Escolha uma única sequência que você repete toda noite e escreva ela num papel, com horário.

Só isso. Uma linha, hoje.

Se em sete dias você cumpriu essa sequência cinco vezes, aí sim vale discutir que aparelho compra os minutos dela. Se você não cumpriu, nenhum chip A19 vai cumprir por você.

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