A Câmara aprovou a regra das milhas em 13 de agosto e nada mudou na sua fatura: o cálculo de 10 minutos que diz quanto vale o seu ponto em centavos

Homem caminhando sozinho por um terminal de aeroporto

Dê um Upgrade na sua vida.

Existe um tipo de pessoa que viaja de graça e não é sortuda.

Ela só lembra de passar no cartão certo o gasto que já ia acontecer de qualquer jeito. Mercado, farmácia, conta de luz, o bolo que ela comeu da geladeira e vai repor.

E existe o outro tipo, muito mais comum: o que gasta a mais para acumular ponto, paga anuidade sem conferir e acha que está ganhando.

A diferença entre os dois não é disciplina. É uma conta de 10 minutos que quase ninguém faz.

Asa de avião vista da janela sobre um mar de nuvens
Foto: Bryan Dickerson / Unsplash

O que foi aprovado, e o que continua exatamente igual

Em 13 de agosto de 2026 a Câmara dos Deputados aprovou o PL 3083/2026, que regulamenta os programas de fidelidade com milhas ou pontos. O texto é do deputado Ricardo Ayres.

Ele divide os programas em dois regimes. Os que oferecem conversão oficial de pontos em dinheiro podem definir as próprias regras de transferência e venda.

Os que não oferecem essa conversão ficam proibidos de impedir a venda ou a transferência dos seus pontos, e de punir você com bloqueio de conta, cancelamento de bilhete ou suspensão de benefício por ter vendido ponto de forma legal.

Tem ainda uma parte que passa despercebida: biometria facial não pode ser usada como trava para restringir esse direito. O programa precisa oferecer outra forma razoável de autenticação.

Agora a parte que importa para o seu bolso neste domingo: o projeto seguiu para o Senado. Nada mudou ainda. Nenhum ponto seu virou dinheiro por causa disso.

Guarde a data e volte a olhar quando o Senado votar. Até lá, o jogo continua sendo o de sempre.

A única regra que faz milha valer a pena

Milha não é investimento. É desconto retroativo em gasto que já existia.

A regra é uma só: acumule apenas no que você compraria mesmo se o programa não existisse.

No segundo em que você compra algo a mais para bater meta de pontos, a conta virou. Você pagou 100 reais para ganhar um benefício que raramente passa de 5.

E tem a segunda metade da regra, que é onde a maioria escorrega: a fatura fecha no mês, paga integral, sem parcelar.

Milha acumulada em fatura parcelada é milha comprada a juro. Só que você não vê o preço.

O cálculo de 10 minutos

Pare de dizer que tem 40 mil pontos. Isso não é informação. Ponto só vira número quando você o transforma em centavos.

A conta é esta: pegue um resgate real que você faria, subtraia as taxas que você ainda paga em dinheiro, e divida pelo número de pontos usados.

Exemplo com números redondos para você copiar o método. A passagem custa 900 reais em dinheiro. No resgate ela sai por 30 mil pontos mais 80 reais de taxa.

Você economizou 820 reais usando 30 mil pontos. Divida: 0,0273 real por ponto. Ou seja, 2,7 centavos por ponto.

Faça isso com três resgates diferentes que você realmente usaria. Vai levar 10 minutos e você vai descobrir que o mesmo ponto vale 2,7 centavos em um caso e 0,9 centavo em outro.

Esse número é o seu chão. Abaixo dele, não resgate. Acima dele, resgate sem pensar duas vezes.

Carteira de couro preta aberta na mão de uma pessoa
Foto: Emil Kalibradov / Unsplash

A anuidade entra na conta, sempre

Cartão com programa bom costuma cobrar anuidade. Muita gente trata isso como custo de existir e nunca compara.

Divida o valor da anuidade pelos pontos que você realmente acumulou no ano.

Se o cartão custou 600 reais por ano e gerou 60 mil pontos, cada ponto custou 1 centavo de anuidade.

Se o seu chão de resgate é 2,7 centavos, você está no lucro. Se o seu chão é 0,9 centavo, você está pagando para ter ponto e chamando isso de benefício.

Esse é o tipo de conta que dói fazer uma vez e evita três anos de prejuízo silencioso.

O rotativo apaga qualquer milha do planeta

Em fevereiro de 2026 o juro do rotativo do cartão estava em 435,9% ao ano, segundo o Banco Central. O parcelado do cartão, em 200,2% ao ano.

Coloque isso lado a lado com o seu ponto de 2,7 centavos.

Um saldo de mil reais no rotativo por um mês custa dezenas de reais. Para compensar isso em milha, você precisaria acumular milhares de pontos no mesmo mês.

Não existe programa de fidelidade no mundo que pague esse juro. Se você está no rotativo, o assunto não é milha. O assunto é sair do rotativo.

Eu demorei para aceitar isso. Passei mais de um ano me achando esperto com pontos enquanto rolava fatura. Estava pagando caro por um brinde.

Três erros que transformam milha em prejuízo

Primeiro: comprar para acumular. Já falamos. É o mais caro e o mais comum.

Segundo: guardar ponto por anos esperando o resgate perfeito. Ponto perde valor com o tempo, porque a tabela de resgate sobe. Ponto parado não rende, encolhe.

Terceiro: não saber a data de expiração. Coloque no calendário do celular hoje, com alerta de 60 dias de antecedência, a validade do seu saldo em cada programa. Leva dois minutos por programa.

A ação de hoje

Abra um programa de fidelidade que você já usa e calcule o valor do seu ponto em centavos em um resgate real, do jeito que está aqui em cima.

Anote esse número. É o único dado que decide todos os seus resgates daqui para frente.

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